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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Coleções de conversas

Depois de termos nos desvirginado, percebemos que não havia mais nenhum grande problema para ser resolvido em nossas vidas. E isso era um problema muito sério. Passamos a freqüentar a fábrica de sabão abandonada para colecionarmos conversas sobre a nossa situação existencial. Nunca chegamos a nenhuma conclusão. Mas era um lugar bonito, afastado da cidade, afastado de tudo. Ficávamos horas olhando para o céu, deitados no grande gramado, reclamando do tédio, fazendo planos para o futuro, reclamando do solidão da adolescência e de como éramos infelizes fora daquela fábrica abandonada. Éramos muito infelizes. E solitários. De uma coisa tínhamos certeza: não iríamos mofar naquela cidade. Isso não.

Trecho do livro Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva, no qual Rindu fala sobre sua adolescência em Sorocaba, ao lado de seu amigo Mário

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Pôres-de-sol

Minha única diversão era procurar lugares de onde eu pudesse ver, nos fins de tarde, o pôr-do-sol. Não perdia um. No topo de edifícios, nas praças, nos morros. Via a cidade, o céu e o avermelhado do pôrdo-sol. Não sei por que fazia aquilo. Aliás, eu nunca sabia por que fazia uma porrada de coisas. Mas eu gostava de ver as muitas tonalidades que o céu ganhava nos fins de tarde. Gostava principalmente de ver o sol afundando no horizonte. “O sol não é apenas novo a cada dia, mas sempre novo continuamente“, era o que estava pichado numa pracinha. O universo em expansão. Assim são as coisas.
Um dia eu quis mais, muito mais. Fui ao mirante do Pico do Jaraguá. Lá eu via tudo. A cidade imóvel e o céu se transformando a cada minuto. As luzes da cidade piscando, a luz do sol explodindo. As ruas sem saída, o infinito do universo se expandindo contra todas as forças. A lei da desordem, da perfeição, do equilíbrio, da entropia. Eu desejava ser uma parte dele. Eu gostaria de ser tudo. Menos um sujeito perdido numa cidade perdida num deserto de tijolo. A cidade me deixava vazio. O Universo, não. Entropia... Perfeição.

Trecho do livro Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Reencontro

Não era uma viagem longa, apenas dez ou quinze minutos, mas eu já tinha feito aquele percurso tantas vezes que ficava terrivelmente entediado, e lamentei não ter levado um livro para ler. Olhava para meu reflexo no vidro da janela, para os outros passageiros que entravam e saíam, para os túneis, e de repente quem vejo? Paula Moors. Ela estava sentada de frente para mim, cinco ou seis fileiras adiante, no memso vagão do metrô. Não sabia há quanto tmepo estava ali, nem em que estação havia embarcado. Olhei seu rosto por um momento, o nariz agudo, a arcada proeminente (alguém me dissera que ela colocara aparelho). O cabelo estava mais comprido agora, mas, de resto, não havia mudado tanto, desde a época em que me dissera aquelas palavras terríveis: "Acho que não estou apaixonada por você." Que frase! Que escolha de palavras!
Durante seis meses, talvez um ano, já não lembro, senti sua falta com a aflição de uma dor de dente. Tínhamos cometido tantas intimidades no meio da noite, tinhamos dito tantas coisas secretas, e agora estávamos ali, nós dois, calados, no memso vagão do metrô. O que teria um sabor trágico quando eu era mais jovem - mas que agora precia, sei lá, um fato normal da vida. Nada fantástico, nem indecente, nem engraçado, apenas algo comum: o mistério de alguém entrando e saindo da nossa vida, afinal, desmistificado. (Essas pessoas acabam indo para algum lugar.)

Trecho do livro O Clube do Filme, de David Gilmour